domingo, 5 de setembro de 2010

Ainda não é hora

Essa noite não dormi bem. Fechei meus olhos por duas horas, sonhei inquieta com tudo aquilo que me aflige, acordei desnorteada. Normalmente, eu fico fantasiando histórias tristes, pra tentar dar uma razão à minha dor, e deixar que ela flua no meu rosto em lágrimas. Percebi que, dessa vez, não estou pronta pra isso. Como não acontece há muito tempo, não estou pronta pra enfrentar minha tristeza e deixar que minha alma se cure aos poucos. Eu sei que foi um final feliz, mas custou muito caro. Custou a proteção que construí a minha volta, custou os segredos que enterrei, custou uma esperança. Depois que abandonar esse escuro, vai ser tudo bem de novo, eu sei.Só não estou pronta para chorar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

As flores e a estrada

Ela caminhava pela estrada, com calma. Prestava atenção em cada passo, nas pegadas que deixava para trás, e na leve poeira que levantava. Olhava para o céu, para as nuvens, ouvia os pássaros cantando e imaginava como seria voar. Era um lindo caminho, no horizonte, não haviam obstáculos, apenas as árvores de copa bem verde, com flores e frutos. A brisa batia em seu rosto, e lhe dava conforto. Era um caminho sem fim, sem destino, mas era um bom caminho. Ela sabia que não precisava de mais nada.
Por um momento desviou o olhar do horizonte e das árvores, e percebeu que, em meio a alguns arbustos, havia outra estrada. Uma estradinha estreita, com árvores debruçadas sobre o caminho, como uma capela. A terra era coberta pelas vívidas cores das pétalas caídas, e era possível ver alguns passarinhos comendo as frutas que estavam no chão. O ar era mais fresco, pois lá batia menos sol, mas a brisa não era tão macia.
Estava parada, olhando hora entre os arbustos, hora para a larga estrada de terra. Perguntava-se se deveria mudar de caminho. Estava indecisa, gostava muito do horizonte longo, mas também gostava muito das flores. Era difícil escolher, os dois caminhos pareciam tão bons e seguros. Como saber qual seria o melhor?
Por fim, decidiu tomar aquele mais estreito. Fitou-o bem por uma última vez antes de voltar a andar. Deu um longo suspiro, preparou-se para retomar sua caminhada. Foi quando um vento muito forte bateu, percorreu todo o corredor formado pelas arvores, levantou tanta poeira, que foi necessário fechar os olhos por alguns segundos. Quando os abriu novamente, as pétalas haviam sido varridas para longe, e em seu lugar haviam apenas folhas secas e acinzentadas. Uma leve tristeza lhe apertou o coração, lamentou por um momento.
Andava novamente na larga estrada de terra, observando a leve poeira, ouvindo o cantar dos pássaros, e imaginando como seria andar por uma outra estrada.

sábado, 26 de dezembro de 2009

E acaba mais um ano...

Tirei alguma coisa do lugar. Coloquei num lugar alheio, e estou esperando ver se gosto. Parece estranho, e me causa algum desconforto.
Mudei alguma coisa de lugar. É quase o lugar certo, estou quase decidida de onde vou deixar. Parece estranho, mas talvez não seja tão ruim assim.
Troquei uma coisa pela outra. O lugar pelo menos está ocupado, acho que é assim que tem que ser, mesmo. Parece estranho, mas parece certo.

É um pouco apertado e desconfortável aqui, falta ar, falta luz, e faz frio. Mas quando entra um pouco de sol pela frestinha, é o melhor lugar do mundo.

Quem vive um drama como eu talvez saiba o que estou dizendo.
Quem vive num conto de fadas como eu talvez saiba o que estou dizendo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Às vezes eu não queria ser assim. Não queria pensar o tempo todo que preciso de alguém que me trate, que abra minha cabeça e me diga quem eu sou, o que eu devo fazer.

Não queria derramar todas as lágrimas que eu derramo, nem falar todas as mentiras que eu falo, por mais que quando eu diga, elas me pareçam verdade.

Não queria me encolher no chão, ou bater a cabeça na cama. Não queria jogar tudo pro ar, não queria olhar pra bagunça que eu faço.

Parece mesmo que tenho um parafuso a menos. Tenho medo. Medo que o poço se torne mais fundo, medo que o fundo fique mais raso, medo que o gole seja maior, e que o corte seja profundo.

Nunca sei o que realmente quero ver, ou o que vejo. Meus parâmetros mudam demais, minhas coisas mudam demais. É tudo demais.

Nem sempre sei se meu passado educou bem ou mal, só sei que não sou mais a mesma, e sei que nunca mudei.

Não se sinta mal por não entender, eu juro que também não entendo. E me desculpa se às vezes eu quero ir embora.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Estrela cadente

O que são amigos senão desconhecidos que deram sorte de se conhecer bem? Esse homem e essa menina se conheceram um dia, um dia que ele estava muito bêbado para lembrar, e ela muito sóbria pra gostar dele.

Algum tempo depois, se conheceram de novo, e dessa vez, gostaram um do outro, e lembraram de conversar e dar algumas risadas a próxima vez que se viram.

Continuaram se vendo, pouco. Não eram muito amigos, eram bons conhecidos. Conversavam até que bastante, mas quase nunca tinham o prazer de se encontrar.

Até que uma noite dessas escuras e cheias de estrelas, eles se encontraram na casa de uma amiga. Tudo o que os três tinham era um livrinho de palavras cruzadas, mas acredito que nunca se divertiram tanto, com tão pouco. As horas passavam rápido demais para tudo o que eles ainda tinham pra viver aquela noite. O sono e o cansaço permitiram que, pela primeira vez, aqueles dois ficassem sozinhos. E ficaram acordados a noite toda, deitados na cama, lado a lado, com a luz apagada, contando a história de um certo homenzinho muito, muito pequeno. E assim passaram a madrugada, rindo, inventando histórias, fazendo jogos de perguntas, contando alguns dos maiores segredos de suas vidas, dividindo muitas das sensações e sentimentos que tiveram antes daquele momento.

O dia amanheceu, e tiveram que se encarar novamente. Não foi fácil fitar o rosto de quem, agora, sabia tanto sobre você. Mas fitaram os rostos um do outro, esconderam risadas e foram pra casa, cansados, com uma madrugada inesperada e cheia de segredos na memória.

Nos dias seguintes perceberam que se tornaram amigos de verdade. Se gostavam muito, e se conheciam bem. Imaginaram então que naquela noite, enquanto dividiam tudo de si, uma estrela cadente cruzou o céu, e fez com que se aproximassem tanto, tanto, que seus destinos acabaram selados, e a magia só se acabaria quando terminassem o que haviam começado naquela noite.

Dali em diante suas vidas pareceram correr em paralelo: o que acontecia pra um, acontecia pra outro. Era divertido, era único, era a prova de que aquela noite tinha valido a pena.

Até que um dia foram juntos ao teatro, e depois caminharam na Paulista, e se sentaram em frente à uma fonte. Sentaram perto para se proteger do vento, e começaram a imaginar e dividir ainda mais coisas, como sempre faziam.

Foi naquele fim de tarde, quase noite, que terminaram o que havia começado naquela madrugada. Aconteceu o que haviam previsto, suas vidas não eram mais a mesma. Mas, seria muito triste dizer que seus destinos haviam finalmente se separado... O mais adequado seria dizer que se tornaram dois dos melhores amigos que se pode encontrar, com os destinos ainda mais unidos, se é que se pode imaginar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Goodnight, travel well

Abro os olhos, a porta do armário ainda está aberta. Tudo o que resta no cabide é o casaco que vou usar para ir à estação.
Não sei que horas são, mas o quarto ainda não se iluminou com a luz do sol. Deve ser cedo, bem cedo. Talvez ainda esteja de madrugada, não sei quanto durmi. Sento-me na cama devagar, apóio bem os pés no chão gelado, ergo a cabeça e respiro fundo. Olho para trás, e por alguns segundos fito o rosto que ainda dorme. Invejo sua tranquilidade. Volto a olhar para o chão, me levanto devagar, mas ainda assim sinto a cabeça girar.
Tento, em vão, desamassar a camisa. Dobro a barra da calça, estico as meias e calço o tênis. Caminho em direção ao armário e tiro o casaco do cabide com pesar. Reluto em vesti-lo, e opto por fazer isso quando já estiver fora de casa, como se fosse deixar tudo mais fácil.
Saio do quarto, fecho a porta com cuidado. Abro de novo, olho pro homem deitado na cama, me despedindo. Queria que as coisas fossem mais simples. Fecho a porta novamente, dessa vez, sem cuidado algum. Fico ali por alguns segundos, com alguma esperança que ainda haja tempo de voltar atrás.
Nada acontece. Desco as escadas, pego a mala, saio de casa. Na calçada visto o casaco e começo a andar até encontrar um táxi.
O táxi me deixa na porta da estação de trem, que está envolvida com a neblina da madrugada. Entro e vou direto ao guichê, vazio. Espero alguns minutos e compro minha passagem: primeira classe, para tentar fazer da despedida algo menos doloroso. Compro um café e me sento em uma das cadeiras de madeira envernizada que ocupam o grande salão de entrada. Ainda tenho uma hora antes de embarcar.
Não tenho nada para fazer, e aos poucos minha visão se subistitue pelas imagens das boas lembranças dos últimos meses. Isso me entristece, decido deixar as lembranças de lado. É impossível. Eu só queria que as coisas simplesmente dessem certo.
Como os dias felizes se transformam em dolorosas lembranças com tanta facilidade? Ontem eu ainda faria qualquer coisa para que o plano fosse perfeito. E, de repente, decidimos que o melhor seria eu voltar para casa, e deixar que os sonhos se transformassem numa aventura. Nao queria ter nos deixado escorrer por entre os dedos com essa facilidade, mas parece que continuar tentando seria estupidez.
Olho para o relógio da estação, está na hora. Vou com calma até o lixo me livrar do copo de café vazio, com ainda mais calma caminho em direção à plataforma. Se o trem partir sem mim, desisto de ir embora.
Embarco, encontro minha cabine e me sento. O trem vai partir, guardo minha bagagem. Tento encontrar uma boa posição para ficar, mas nada é confortável. Eu sinto falta de ter que dividir uma cama pequena, aqui tem espaço demais pra mim. Péssima a escolha que fiz, mas acho que não tem jeito nenhum de fazer eu me sentir melhor.
Levanto, saio, fecho a porta da cabine. Entro no vagão-restaurante sentindo pena ne mim mesma. Sento. Apóio a cabeça na mesa e olho as árvores passarem pela janela. Talvez essa não seja a coisa certa a fazer. Fico tentando imaginar como seria a vida se eu ficasse, como vai ser agora que eu parti, porque a decisão certa parece estar errada agora.
Tenho sede, peço uma água, jogo no copo cheio de gelo e fico brincando com as pedrinhas que flutuam. Um gole e apóio a cabeça no vidro. A paisagem muda, grandes campos de mato, só mato por todos os lados. Mais um gole, mais água no copo e coloco a cabeça e volta na janela.
O céu começa a clarear, o alaranjado mostra que já vai amanhecer. O sol surge no horizonte. Olho para ele sentindo algum conforto. Estou sozinha para assistir ao triste espetáculo, fecho os olhos pra preservar a visão. Eu devia me arrepender. Eu não me arrependo.

domingo, 2 de agosto de 2009

É...

sabe,
ontem eu ia te ligar logo antes de dormir.
Ontem eu te liguei logo antes de dormir, sorte sua que seu celular estava sem sinal.
Ontem, às 02:20 da manhã, eu te liguei, logo antes de dormir. Sorte que seu celular estava sem sinal.

Queria falar com você, ouvir sua voz mais uma vez no dia. Desejar boa noite.
Na verdade, eu queria que você estivesse aqui, mas isso era impossível, então me contentei com um telefonema.

Ontem, às 02:20 da manhã, eu te liguei, logo antes de dormir. Pena que seu celular estava sem sinal.